Sinopse: O que você faria se o destino lhe desse uma última chance de contar a pessoa que você ama que sempre foi apaixonada por ela?Esse é um conto que narra a história de Debora e Lucas, dois adolescentes que nunca tiveram uma relação muito fácil, sempre oscilando entre a discórdia e a amizade.Porém isto não impediu Debora de se apaixonar... Mas agora ela está prestes a mudar-se para uma nova cidade, a fim de cursar a faculdade de seus sonhos e com o plano de esquecer de vez Lucas.Ela só não esperava que por uma obra do destino teria que sentar-se ao lado daquele por quem escondeu seus verdadeiros sentimentos por anos durante uma viagem de 4 horas.
07h30min da manhã
No dia do meu aniversário de 17 anos
eu recebi o melhor presente que poderia existir, pelo menos para mim, a notícia
de que eu havia sido aprovada no curso de letras de uma das melhores faculdades
públicas da região. E o melhor, em uma cidade bem longe da minha.
E agora eu estava andando pelo
corredor do ônibus, sozinha, prestes a ir em direção a minha independência. Nos
meus planos este seria o segundo dia mais feliz da minha vida, mas como sempre,
meus planos
nunca dão certo.
— 31, 32, 33, 34, 3... Ó merda! — no momento em que
avistei meu lugar o sorriso que mantinha em meu rosto desapareceu
completamente.
A pessoa sentada no acento ao lado do que deveria
ser meu por outro lado abriu um sorriso resplandecente quando me viu.
— Ora, ora — ele falou com os olhos brilhando de
excitação — Será que o seu assento seria este? — completou indicando o banco ao
seu lado.
— Por favor, me diga que isso não esta acontecendo!
— implorei fechando os olhos para tentar acordar do pesadelo. Aquele deveria
ser um dia perfeito, o segundo melhor dia da minha vida, e isso significava que
Lucas Collins não deveria estar ali, de jeito nenhum!
— Qual é o problema Debs, tenho certeza que essa
viagem vai ser muito divertida — ele exclamou inclinando a cabeça para a
direita com um sorriso de anjo e os olhos de um demônio.
— É, eu também. E se me chamar de Debs de novo eu
te mato! — ameacei antes de me jogar má humorada no assento que seria meu pelas
próximas 4 horas.
07h45min da manhã
Saímos da rodoviária há 10 minutos,
nesse meio tempo não trocamos mais nenhuma palavra, mas Lucas me lança olhares
esporádicos a cada 30 segundos. Sempre que o pego fazendo isso o encaro com
cara feia fazendo-o voltar a olhar para a janela.
E
uma parte de mim se odeia por ser assim tão grossa. Uma parte bem pequena.
Mas
afinal, o que ele estava fazendo aqui? Já fazia duas semanas que eu não o via.
Tinha ouvido boatos de que ele iria começar a estudar na faculdade da nossa
cidade, assim como todos os seus outros amigos retardados, e pelo que eu saiba
as aulas de lá já haviam começado, então o que ele fazia viajando?
— Que cara é essa? — ele perguntou me observando
com curiosidade.
— Você não deveria estar estudando agora ou algo
assim? — fui direto ao ponto, como sempre.
— Por quê? — ele retrucou inclinando a cabeça com
curiosidade. Ele tinha essa péssima mania, e mesmo que esse gesto fosse um
pouco fofo, era uma péssima mania.
— Você não vai cursar faculdade? — insisti.
— Sim, e daí? — ele estava claramente se fazendo de
desentendido.
— Esquece — respondi desistindo da conversa, não
era como se eu me interessasse pela sua vida estudantil para falar a verdade.
Porém ele continuou me observando.
— O que foi? — perguntei encarando-o novamente,
incomodada com os seus olhos em mim.
— Nada — ele respondeu finalmente desviando o
olhar.
Dei de ombros e puxei o livro que estava levando na
minha bolsa. Ignorar era a melhor atitude no momento, já que o meu primeiro plano,
de não vê-lo mais assim que as aulas terminassem, havia sido arruinado eu
deveria pelo menos manter o mínimo de contato possível. Seria melhor assim,
quanto menos ele falasse ou quanto menos eu olhasse para ele tornaria as coisas
mais fácil. Assim, provavelmente logo logo eu esqueceria da coisa mais idiota que eu já havia feito na
minha vida.
O negócio entre Lucas e eu é que; nós nunca nos
demos bem. Desde o primeiro dia em que nos vimos há 12 anos, nunca.
Para retratar isso vou relembrar brevemente o nosso
primeiro encontro:
Naquela época eu estava cursando a pré-escola,
entretanto já havia aprendido a ler e a minha paixão pela literatura já estava
começando a aflorar, talvez por isso eu não tivesse assim tantos amigos.
Durante a aula nos sentávamos em classes para dois alunos e por algum motivo
com dois meses de aula eu ainda não tinha uma dupla.
Porém, nesse dia antes de começarmos a aula nossa
professora apareceu com uma novidade, um aluno novo.
Com uma estatura menor que a maioria dos outros
garotos da turma, cabelos negros, enormes olhos azuis e uma cara extremamente
emburrada, Lucas mal se apresentou para a turma. Então quando a professora
disse para ele se sentar ao meu lado é claro que eu fiquei nervosa, mesmo assim
para orgulho dos meus pais, eu tentei ser educada.
— Oi, meu nome é Debora — me apresentei com o
sorriso mais alegre que consegui. Porém ele apenas me encarou por alguns
segundos com aquela mesma expressão de gato mal humorado antes de voltar a
olhar para frente e me ignorar completamente — Poderia pelo menos responder,
bobão — sussurrei também emburrada.
— O que foi, baleia? — ele se virou me encarando
com raiva.
Lembro que nesse momento tudo que pensei foi
“baleia????”. Tudo bem, eu realmente era uma criança um pouco cheinha, mas baleia
era um extremo exagero ofensivo!
Foi então que eu enfeie meu caderno da cara dele.
08h05min da manhã
Estou tentando me concentrar na leitura a mais ou
menos 15 minutos, sem sucesso.
— O que você tanto olha? — finalmente perguntei sem
conseguir mais me conter, era impossível fazer qualquer coisa com os olhos dele
me seguindo daquela maneira.
— Eu sabia que você não iria se segurar por muito
tempo! — ele exclamou como se tivesse acabado de vencer uma batalha — Se você
não gosta que te observem porque diabos escolheu fazer letras?
— Existem mais coisas que uma pessoa formada em
letras pode fazer além de dar aulas — falei já cansada de explicar aquilo cada
vez que alguém me perguntava que curso eu iria fazer.
— Tipo o que? — ele insistiu. Repassei mentalmente
a lista de atuações da profissão que eu já havia decorado há algum tempo, mas
não estava nem um pouco a fim de repeti-la para Lucas.
— Não estou com a mínima vontade de discutir isso
com você, além do mais, você sabe que eu sempre quis ser escritora — falei
exalando gentileza. Mas era verdade, meu sonho nunca foi um segredo para
ninguém, inclusive para ele — E você, vai cursar o que? — me obriguei a
perguntar quando percebi que ainda não sabia que curso ele iria fazer.
— Engenharia — agora foi minha vez de encará-lo — O
que foi? Eu sou bom em matemática, você sabe. Aliás, pelo que eu me lembre se
não fosse por mim certa pessoa teria repetido o 2° ano, não é mesmo?
— Cale a boca. Eu só estava pensando em como a vida
é injusta. Porque eu vou trabalhar com o que eu gosto e ser pobre enquanto você
também vai trabalhar com o que gosta e será rico? — perguntei olhando-o de
forma acusadora, como se de algum jeito aquilo fosse culpa dele.
— É simples, você só precisa se casar com um cara
rico — ele respondeu com um sorriso alegre e menos diabólico — Isso se você
encontrar algum suficientemente louco para isso — mas é claro, ele nunca
poderia ser legal por mais de dois minutos.
— Eu poderia dizer muitas coisas para retrucar
isso, mas... — eu iria dizer “mas provavelmente sua pouca capacidade mental não
deixaria você entende-las”, porém subitamente me lembrei que não deveria estar
falando com ele.
— Mas...? — ele insistiu, porém eu me mantive em
silêncio pegando novamente o livro que estava lendo e mantendo os olhos
cuidadosamente focados nele — Droga, você sempre faz isso! — ele reclamou
virando-se para a janela com sua expressão emburrada característica.
Eu queria perguntar o que, o que eu sempre fazia,
mas não perguntei. Porque embora eu faça pose, no fundo eu sou uma completa
covarde, e estava com medo do que ouviria.
08h45min da manhã
Depois daquilo eu e Lucas não trocamos mais nenhuma
palavra. Eu finjo estar concentrada no livro, mas na verdade não li nem três
páginas nesses 40 minutos, ele colocou fones de ouvido e esta observando
paisagem que passa pela janela desde então.
Fecho o livro com um suspiro sem conseguir mais
olhar para as palavras e não entender o que elas querem dizer. Ele desvia o
olhar da janela para mim e assim nos encaramos por um momento, antes que eu
desvie o olhar.
— É a primeira vez que vejo você deixar um livro de
lado mesmo tendo tempo para ler — ele comenta, porém eu continuo em silêncio —
Ei! — exclama mais alto, tentando chamar minha atenção — Estou falando com
você! — continua, agora também estalando os dedos em frente aos meus olhos.
— Porque você tem que ser tão irritante? — xinguei
já sem conseguir aguentar as provocações. O problema é que quando me virei para
encará-lo percebi que seu rosto estava muito perto, muito perto mesmo.
Aparentemente ele também se assustou com meu
movimento brusco, pois nenhum dos dois se moveu por um bom momento, até que
ambos saímos do transe e nos viramos para lados opostos sem falar nada.
Tentei ao máximo fingir estar muito interessada no
que havia no outro lado do corredor, mas na verdade eu só estava tentando
manter meus olhos longe dele. Aquele simples acidente fora o suficiente para
fazer meu pulso acelerar, era odioso.
O pior é que o problema real não era ter o rosto de
Lucas perto do meu, o problema é que ele ficou perto o suficiente para que eu
pudesse sentir seu hálito em minha pele e perceber o quanto seus olhos são
azuis, perto o suficiente para me fazer lembrar outro acidente ocorrido anos
atrás, o acidente que causou o maior erro da minha vida.
Talvez eu não tenha mencionado antes, mas além de
colega de escola Lucas também era meu vizinho e nossas mães grandes amigas, o
que fazia com que eu convivesse mais com ele do que qualquer outra pessoa que
eu conhecesse na escola. Então embora nunca tivéssemos nos dado bem ao longo
dos anos acabamos nos acostumando com a presença um do outro.
Até que há dois anos eu comecei a namorar com um
garoto, Marcos, ele era bonito, legal e embora fosse um pouco idiota, como
todos os garotos, estava em um nível suportável, eu realmente gostava dele.
Nunca havia pensado que algo assim pudesse incomodar Lucas, mas desde que eu
havia começado a sair com Marcos todas as vezes que nos víamos ele ficava
encarando a nós dois de uma forma estranha, quase ameaçadora. No inicio não dei
muita importância, até mesmo gostei de poder incomodá-lo um pouco, porém as
coisas começaram a piorar.
Certa noite eu estava em uma festa de uma garota da
nossa escola, eu realmente odeio festas, mas depois de ter recusado inúmeros
convites de Marcos chegou um ponto em que eu tive de aceitar pelo menos um.
Lucas também estava na festa e ele havia ficado a noite toda nos jogando olhares
mortais, alguns dias antes nós havíamos tido uma discussão quando de uma hora
para outra ele resolveu “mandar” eu ficar longe de Marcos, então a situação
estava bastante desconfortável.
Depois de aguentar o suficiente do cheiro de
cigarro e de álcool que havia em todo o lugar e observar todas aquelas pessoas
agindo como babuínos loucos no cio, resolvi tentar achar um lugar onde pudesse
respirar sozinha por um momento.
Finalmente encontrei uma pequena sala vazia, estava
cheia de coisas velhas então deduzi que era um deposito, mas tinha uma janela
pela qual entrava um pouco de ar puro e para mim isso era o suficiente.
Então eu estava lá, perfeitamente acomodada em cima
de uma caixa de madeira velha quando Lucas entrou e vasculhou o local como um
animal farejando a presa até me encontrar.
— Porque você sempre some desse jeito? Estou te
procurando há uma meia hora — ele reclamou já se convidando para entrar no meu
refugio.
— Eu não estou há meia hora aqui dentro —
retruquei, mas tudo que ele fez foi cruzar os braços e me lançar um olhar
incrédulo — tudo bem, talvez eu esteja — admiti.
— Qual é o sentido de vir a uma festa e ficar
escondida em uma sala escura?
— É a minha natureza anti-social agindo, você mesmo
sempre me chama assim, não é? — ele apenas deu de ombros diante da minha
resposta — O que você quer? — completei, sabia que ele não estaria me
procurando apenas para desfrutar o prazer da minha companhia.
— Achei que finalmente estivesse fugindo do seu
novo namorado — respondeu com uma expressão bastante séria, o que era bem raro.
— Não comece! Qual é a dessa implicância com
Marcos? Você nem o conhece direito — retruquei já começando a me irritar, não
estava acreditando que ele havia ido até ali só para continuar aquela
discussão.
— Se você confia tanto assim nele, não há o que
fazer. Mas depois não diga que eu não avisei — ele falou soltando um suspiro
cansado, depois pondo sua expressão arrogante de sempre no rosto e virando-se
para ir em direção a porta.
— Me avisar de algo para o meu próprio bem?
Desculpe, mas é difícil acreditar em algo assim vindo de uma pessoa que até
hoje sempre fez de tudo para me ferrar! — acusei antes que ele pudesse sair do
cômodo.
— O que? — ele perguntou virando-se para me encarar
novamente — Não seja exagerada! — continuou se aproximando de mim, até ficar
muito mais perto do que estava antes — Tudo que eu fazia eram brincadeiras
infantis...
— Ainda bem que admite! — interrompi.
— Quieta! — ordenou chegando ainda mais perto, seus
olhos denunciavam que ele estava realmente com raiva, o que me deixou um pouco
assustada — Sim, eu sei que o que eu fazia era infantilidade, e daí? Isso é
algum tipo de crime agora? Mas nunca fiz nada fiz nada para prejudicar ou
machucar você! E não diga que fiz apenas coisas assim, porque eu não fiz! — ele
estava certo, eu tinha que admitir, mas admitir que eu errei é algo
extremamente difícil para mim, então tudo que fiz foi ficar idiotamente em
silêncio — Desculpe! — falou soltando outro suspiro, provavelmente depois de
ver minha expressão assustada — Só quero dizer que você merece alguém melhor
que aquele idiota.
Aquela última afirmação me deixou surpresa, tão
surpresa que a única reação que consegui ter foi rir.
— O que foi? — ele questionou parecendo nervoso.
— Por favor, repita o que acabou de dizer. Preciso
ouvir de novo para acreditar! — falei depois de finalmente conseguir controlar
o riso.
— Vá sonhando! — ele rebateu com uma expressão
emburrada.
— Tudo bem, então me diga Sr. Lucas, quem seria a
pessoa que me merece? — insisti, eu sabia que estava sendo implicante, mas
ouvir um elogio vindo de Lucas era tão raro que seria um desperdício não tirar
pelo menos um pouco de sarro da cara dele.
Ao invés de responder ele fez uma careta de
desgosto, como sempre acontecia quando alguém tocava em algum ponto fraco seu.
Achei que ficaria sem resposta, mas então ele me lançou um olhar indecifrável e
em seguida virou-se e ficou ainda mais perto. Mais perto do que jamais havia
ficado. Tão perto que a surpresa me fez prender a respiração por um momento,
mas ainda podia sentir a dele em meu rosto.
— Talvez alguém que goste de você de verdade — ele
sussurrou sem desviar os olhos dos meus por nem um instante.
E aquela foi a primeira vez que percebi o quanto os
olhos de Lucas eram azuis, e também a primeira vez em que pensei que o
impossível poderia acontecer, pois por um segundo realmente me passou pela
cabeça que talvez ele fosse me beijar.
Mas isso não aconteceu. Talvez porque fomos
interrompidos por Marcos abrindo a porta para me procurar, talvez porque
simplesmente não era para acontecer e eu estava imaginando coisas.
E sobre Marcos? Digamos que não levou muito tempo
para eu descobrir que Lucas estava certo. Talvez por isso eu o odeie ainda
mais, porque diabos ele tem que ser o Senhor Perfeito, sempre certo sobre tudo?
Tudo bem, ele ganhou alguns pontos por não ter
proferido um “eu te avisei” no dia em que peguei aquele canalha me traindo.
Porém estes mesmos pontos foram perdidos assim que vi o olhar de compaixão no
seu rosto quando me viu chorando logo depois.
E depois ganhos de volta com mais alguns acréscimos
no dia seguinte quando vi Marcos com a cara inchada e um olho roxo e descobri
que quem havia feito aquilo tinha sido Lucas. O motivo da briga aparentemente
fora algo idiota como um tropeção que resultou em um derrubando bebida na
camisa do outro na noite anterior, mas no fundo eu sabia que aquilo tinha sido
só um pretexto.
À tarde quando minha mãe me pediu parar levar
algumas coisas na casa da mãe de Lucas eu não reclamei, desta vez eu queria
realmente vê-lo.
Quando bati na porta foi ele mesmo que atendeu,
estava com o cabelo molhado, tentando estancar o sangue que saia de um
machucado na sua testa usando a toalha de banho e por um momento pareceu ter
ficado paralisado ao me ver ali.
— Isso parece feio! — apontei fazendo uma careta
para o ferimento.
— É, eu já sei — ele devolveu com um olhar frio
voltando para se jogar no sofá da sala e me convidando para entrar.
— Porque não fez um curativo? — perguntei enquanto
depositava o que minha mãe havia mandado na mesa da cozinha.
— Minha mãe fez um mais cedo, mas saiu durante o
banho — ele explicou dando de ombros, mas fazendo uma careta de dor logo em
seguida.
— Você não sabe fazer um curativo em si próprio? —
provoquei com um sorriso malicioso.
— É difícil em lugares que eu não posso ver, além
disso, eu não me meto em brigas, nunca precisei saber essas coisas — ele
retrucou já irritado, ele sempre ficava assim quando eu cutuca alguma fraqueza
sua, mesmo que fosse mínima.
— Mas se meteu desta vez... — insisti para
incomodá-lo um pouco mais.
Ele me lançou um olhar indecifrável antes de virar
o rosto para o lado oposto ao meu e responder um simples “é”.
— Onde esta a caixa de primeiros socorros? —
perguntei olhando em volta para ver se a avistava em algum lugar.
— Porque quer saber? — ele questionou com
curiosidade.
— Para que eu possa fazer um curativo em você —
falei revirando os olhos pela pergunta idiota.
— Por quê? — ele repetiu agora parecendo assustado.
— Porque desta vez você merece — anunciei com um
pequeno riso pela sua desconfiança.
— Na segunda gaveta do balcão a sua direita — ele
respondeu depois de me analisar por alguns segundos.
Depois de pegar a caixa com o que eu precisava fui
até o sofá e subi de joelhos ao lado dele para poder ver melhor o ferimento.
— Então é só salvar a princesa do dragão para poder
ganhar algumas regalias — ele comentou com um riso sarcástico se contorcendo
para poder me olhar agora que eu estava mais alta.
— Pare de se achar o príncipe só por uma bobagem
como essa — impliquei, mas não consegui esconder o sorriso em meu rosto — e
pare de se mexer ou vou derramar remédio no seu olho — avisei.
— Você nunca fica contente com nada — reclamou, mas
pude notar uma pontada de riso na sua voz.
Desta vez não respondi, me mantive em silêncio por
algum tempo e ele também, o que foi bom, pois assim consegui falar o que eu
queria antes que algum de nós falasse alguma coisa que me fizesse mudar de
ideia.
— Obrigada... — disse em voz baixa mantendo-me
cuidadosamente concentrada no curativo.
— Pelo o que? — ele respondeu também em voz baixa,
depois de alguns momentos em silêncio.
— Por nada — falei logo depois, também me fazendo
de desentendida.
— Garota estranha! — exclamou sem olhar para mim,
mas pude notar um sorriso em sua voz.
— Idiota! — retruquei também sorrindo.
Era estranho, falar aquelas coisas daquela maneira,
normalmente dizíamos aos gritos ou aos rosnados. Porém, mesmo sendo estranho
era algo estranhamente agradável.
E foi assim, bastou uma atitude legal, uma conversa
civilizada e tudo desmoronou. Logo depois lá estava eu, com o pulso acelerado
toda vez que o via igual a uma idiota.
No fundo eu queria contar para ele, acabar de uma
vez com aquela pontinha de esperança que sempre ficava me cutucando por mais
que eu soubesse que aquilo era quase impossível.
Entretanto eu sempre me dizia “amanhã”, “amanhã eu
falo”, “amanhã terei uma oportunidade melhor”. Amanhã, amanhã, amanhã... existe
palavra pior para um covarde?
E então os dias foram passando, e ele começou a
namorar outra garota, Luiza, enquanto eu continuava repetindo as mesmas coisas,
e depois veio Carolina, Mariana, Eduarda... Até mesmo eu comecei a sair com
outro garoto, enquanto me afogava em meio aos amanhãs que prometia a mim mesma,
mas que nunca chegavam.
Por fim chegou um momento que eu simplesmente
desisti, resolvi guardar para mim e esquecer tudo aquilo. Até que há um mês, no
dia do meu aniversário eu descobri que havia sido aprovada na faculdade que
tanto queria cursar. Na mesma tarde ele apareceu na minha casa por algum motivo
que eu já não me lembro mais.
— O que foi? — ele perguntou quando viu minha
expressão. Eu estava me segurando para não berrar de felicidade a cada dois
segundos.
— Eu passei! — exclamei me contendo para não
começar a pular de novo.
— Na universidade? — indagou parecendo um pouco
confuso.
— Sim! — falei ainda mais alto.
— E você vai cursar? — ele continuou com uma
expressão indecifrável, por algum motivo também parecia ter ficado pálido
subitamente.
— Claro! Porque não iria? — questionei também
confusa pela pergunta.
— Achei que fosse continuar na cidade —
respondeu-me com a voz baixa, quase um sussurro, sem olhar-me no rosto.
— Se eu não passasse, sim. Mas agora eu não tenho
mais motivos para continuar aqui, não é? — falei sem tirar o sorriso do rosto.
— É... — ele sussurrou novamente, começando a
virar-se para ir embora.
Nesse momento eu notei o que havia acabado de
dizer, eu estava mentindo. Eu tinha um motivo para ficar, ou pelo menos teria
se por algum milagre ele também se sentisse como eu. Então eu pensei “eu
deveria falar com ele agora, por mais impossível que possa parecer, talvez, só
talvez...”
— Lucas, eu... — comecei a falar juntando toda
minha coragem, mas não cheguei a terminar, fui interrompida antes disso pelo
seu olhar gélido.
— Espero que finalmente faça algum amigo por lá —
sua voz era dura como aço. Aquilo me surpreendeu, eu simplesmente não consegui
dizer mais nada, tudo que pude fazer foi observá-lo ir embora.
E foi assim que ele me fez trocar o sorriso por
lágrimas.
09h25min
Um som do outro lado do corredor me despertou dos
meus devaneios. Lucas estava dormindo em sua poltrona em uma posição que não
parecia nada confortável, seu rosto estava virado para mim e sua bochecha
estava esmagada contra o estofado duro deixando-o com uma expressão engraçada.
Eu queria tocá-lo.
Quando olhei para o relógio e percebi que ainda
faltava 1 hora para chegarmos ao nosso destino quase soltei um suspiro de
desanimo. Eu queria sair logo dali, queria acabar logo com aquela tortura.
Tentei de todas as maneiras manter meus olhos o
mais longe possível de Lucas, mas estava se tornando uma missão cada vez mais
impossível, ainda mais agora que eu havia notado que um pouco de cabelo estava
caindo em seus olhos. Aquilo estava realmente me deixando agoniada! Maldito toc
que resolve se manifestar nas situações mais impróprias!
Depois de tentar todas as técnicas de controle que
eu conhecia não consegui mais resistir.
Fui aproximando minha mão lentamente, esperando
que ele não notasse. Eu estava muito perto, quase lá, quando algo interrompeu
meu movimento.
Sua mão havia agarrado a minha a milímetros do seu
rosto e agora ele estava com os olhos abertos. O movimento foi tão repentino
que me deixou assustada.
— Tinha... cabelo... no seu rosto — expliquei
gaguejando pelo susto.
— Ah — ele respondeu soltando minha mão e
balançando a cabeça para despertar completamente. Eu continuei congelada na
mesma posição — Obrigada — murmurou logo em seguida com a voz ainda sonolenta e
tirando o cabelo dos olhos ele mesmo — Não consigo dormir direito nesses bancos
— reclamou por fim.
— Não são nem 10 horas e você já está com sono,
você não dormiu essa noite não é? — conhecendo os hábitos noturnos de Lucas
minha pergunta se transformou quase em uma afirmação. Ele também não fez
questão de respondê-la, apenas me ignorou e continuou fazendo alguns exercícios
para se alongar.
Depois de alguns minutos ele voltou a colocar seus
fones e eu a ler meu livro, ou pelo menos tentar lê-lo.
Então subitamente ele resolveu fazer meu ombro de
travesseiro, ou algo assim, deitando a cabeça sobre ele sem nem pedir a mínima
autorização, e me fazendo pular de susto com o gesto repentino.
— O que esta fazendo? — perguntei encarando-o
zangada, mas sem expulsa-lo dali.
— Minhas costas estão doendo — ele respondeu como
se aquilo explicasse tudo.
— E o que eu tenho a ver com isso? — insisti.
— Pare de ser tão chata — reclamou fazendo uma
careta — por favor — completou com um sussurro enquanto fechava os olhos. Eu
estava prestes a começar a me mexer para expulsa-lo dali quando ouvi aquilo,
acabei perdendo a coragem no mesmo instante.
Ele tinha um cheiro bom, que lembrava um pouco
hortelã e algo doce. Eu queria me aproximar mais. Os fios escuros do seu cabelo
faziam contraste com os de tom dourado do meu, pensei que talvez devesse tirar
meu cabelo de perto do seu rosto, aquilo provavelmente devia estar incomodando,
mas eu mal ousava me mexer, por outro lado também não conseguia desgrudar meus
olhos dele. Meu coração estava acelerado. Como eu sou idiota.
Eu achava que ele havia adormecido novamente, porém
comecei a ouvir uma melodia sendo cantarolada baixinho, quase em sussurros.
Reconheci a musica no mesmo instante, I Will dos Beatles.
— Que música melosa! — comentei rindo, aquilo não
combinava muito com ele.
— É Beatles! — ele respondeu com tom indignado.
— Mesmo assim ainda é melosa — insisti — Além
disso, você canta muito mal sabia? — completei para provocá-lo.
— Quieta! — retrucou antes de continuar seu canto
sem se importar com a minha reclamação, ou talvez exatamente porque eu tinha
reclamado.
E fazendo questão de cantar boa parte da sua playlist
pelo resto da viagem, me deixando a beira de um surto.
Então subitamente o ônibus parou e a sua musica
também. Porém ele não fez menção de se levantar ou pelo menos se mover, sua
cabeça continuava recostada em meu ombro e seus olhos estavam fechados.
— Lucas, nós também precisamos descer — me obriguei
a falar quando os últimos passageiros finalmente saíram, tenho que admitir que
eu também não queria sair, a viagem que antes parecia que duraria uma
eternidade acabou passando rápido demais.
— Eu sei — ele respondeu em um sussurro
levantando-se.
Eu também o segui para fora do ônibus, éramos os
últimos passageiros a pegar as bagagens também, como eu imaginei.
— Vai ficar por muito tempo? — perguntei apontando
para sua enorme mala.
— É, acho que sim — ele respondeu jogando a cabeça
para o lado e depois me lançando um sorriso divertido — 5 anos me parece
bastante tempo — completou como se estivesse se segurando para não rir.
Eu parei no mesmo instante.
— Isso quer dizer que... — falei incrédula. —
Porque você não me contou seu desgraçado? — gritei em plena rodoviária, algumas
pessoas se viraram para nos observar, mas não me importei. Lucas desta vez não
se segurou e começou a rir alto.
— Em primeiro lugar, porque eu perderia essa sua
cara. E em segundo, porque você não perguntou! — disse dando de ombros.
— M-Mas, você adora aquela cidade! — exclamei ainda
sem acreditar.
— Eu só vou me mudar, não fui exilado de lá idiota,
posso voltar quando eu quiser — ele retrucou revirando os olhos. — Além disso,
lá não seria a mesma coisa sem... antes.
Ele começou a frase de maneira normal, mas pareceu
mudar seu sentido no final, como se subitamente tivesse se arrependido do que
iria dizer, eu conhecia bem essa sensação.
— Não seria a mesma coisa sem antes? — perguntei
com um sorriso maroto, implicando com a maneira estranha como a frase soava.
— Sim — insistiu teimoso como sempre, mas desviando
os olhos no momento da resposta.
Continuei com o mesmo sorriso no rosto, mas não
impliquei mais com ele. Eu estava feliz, mais feliz do que eu poderia aguentar,
não tinha percebido o quanto queria continuar perto dele até aquele momento.
Agora poderíamos continuar juntos...
Juntos...
Enquanto pensava nisso ele pegou sua mala e começou
a andar, a se afastar. Percebi então que aquele era o caminho que estávamos
pegando, não importa o quanto estivéssemos próximos, nossas atitudes nos
deixavam cada vez mais longe.
Não, minhas atitudes.
Ele havia ido até ali, deixado sua cidade, ele
havia feito tanta coisa e o que eu fiz? Nada, absolutamente nada.
Eu sou mesmo uma covarde. Mas eu não quero
continuar assim, eu quero... Tentar.
— E se eu disser que não acredito em você? —
perguntei puxando-o de volta pela manga da camisa.
— Sobre o que? — retrucou curioso.
— Sobre o motivo de você ter vindo para essa
cidade. E se eu disser que acho que você veio por minha causa? — continuei
reunindo toda a coragem que tinha.
Sua reação foi semelhante à de levar um soco no
estomago. Por um momento pensei que ele tivesse entrado em estado de choque
pela atitude direta e repentina.
Já estava pensando que ele não responderia quando
finalmente ouvi as palavras saindo de sua boca.
— E-Eu diria que você está achando demais — ele
falou parecendo nervoso, mas de maneira firme.
Soltei sua blusa. No fundo eu sabia que isso iria
acontecer, era uma ideia impossível, mas isso não impediu que aquele nó se
formasse em minha garganta.
— É, acho que sim — falei com a voz fraca, baixando
a cabeça e também pegando minha mala.
— Ei, espere — ele segurou meu braço impedindo-me
de passar por ele. — Porque disse isso? — Como se eu fosse responder, o que ele
queria afinal? Rir da minha cara?
— Por nada! — respondi bruscamente tentando me
livrar dele.
— Ninguém fala algo assim por nada — insistiu, mas
diferente do que eu havia imaginado, sem um sorriso arrogante no rosto. Na
verdade ele parecia ansioso.
— Eu falo — teimei jogando-lhe um olhar duro.
— Não, não fala — retrucou com sua expressão ainda
séria.
— Faria alguma diferença para você se eu falasse a
verdade? — perguntei de uma forma que mais parecia uma acusação.
— Faria — ele respondeu um segundo depois. Seus
olhos fixos nos meus transmitindo uma sinceridade e também certa ansiedade que
eu nunca havia visto antes em Lucas.
Talvez por isso eu tenha continuado a falar, mesmo
sabendo que não devia, mesmo sabendo que quanto mais eu continuasse ali mais eu
iria me magoar.
— Eu realmente queria que você tivesse vindo por
minha causa. Eu queria porque sou uma idiota que não sabe ser sincera sobre o
que sente e que sempre acaba metendo os pés pelas mãos, mas que no fundo, só
queria ficar mais algum tempo perto de alguém com que ela se importa — falei
como se estivesse colocando para fora tudo que eu sempre quis dizer, mesmo
assim, ainda exclui o principal motivo de todo aquele discurso.
— Eu estou aqui, não estou? — a pergunta parecia
mais uma provocação para que eu continuasse a falar, fiquei tentada a falar
tudo de uma vez, mas como sempre, o meu lado covarde foi maior.
— Não do jeito que eu queria — respondi baixando a
cabeça e pegando novamente minha mala — Deixa pra lá, você não entenderia, é
impossível — completei me virando para recomeçar a andar, e repetindo
mentalmente comandos para minhas glândulas lacrimais continuarem estáveis.
Estava prestes a dar meu primeiro passo quando ele
agarrou novamente meu braço fazendo-me virar de forma brusca.
— Você é uma completa idiota — disse subitamente,
seu rosto muito próximo do meu, como se estivesse acusando-me de algum crime.
— O que diabos... — comecei a reclamar, estava
prestes a xingá-lo com algumas das piores palavras que eu conhecia quando ele
continuou.
— Não, nós somos dois completos e absurdamente
idiotas! Eu não acredito que... que... — agora ele havia se afastado um pouco e
falava rindo e balançando a cabeça de forma incrédula.
— Não acredita no que? — perguntei já impaciente
com a sua incapacidade de terminar a frase.
— Que eu levei tanto tempo para fazer isso! — ele
respondeu parando de rir e cravando seus olhos nos meus.
Por um segundo me perguntei do que ele estava
falando, e então repentinamente ele se aproximou, ficando tão próximo que eu
pude sentir pude sentir seu nariz tocar o meu e ver seus olhos indo em direção
a minha boca, tão próximo a ponto de me fazer prender a respiração, mais
próximo do que eu acreditava ser possível.
E por fim, finalmente, o impossível aconteceu.

